Goodbye Ruby
Ruby não tinha 15 anos.
No conhecemos numa tarde fria, numa praça, quando eu ia apressado pra casa. Vai não vai, vou pra direita, ela vai pra esquerda, vai e volta, fiquei parado. Ela me olhou, séria. Perguntou meu nome, pra onde eu ia. Disse: ‘meu nome é Ruby, não tô indo pra lugar nenhum, e parece que desse jeito vou ficar por aqui mesmo’. Sem jeito, pedi desculpas, disse meu nome e que estava indo pra casa, apressado, e lhe dei passagem. Ela perguntou onde era a rodoviária. Pro outro lado, eu disse. ‘Se tu vais praquele lado, então te acompanho’. E saímos.
Ruby não tinha 15 anos.
Diminuí o passo e ela me perguntava coisas. O que eu fazia, se era dali, onde morava, a que horas saía ônibus pra Porto Alegre, se eu gostava do que fazia, se morava sozinho. Fiquei tonto e desacelerei um pouco mais o passo.
Começou a chover. Paramos embaixo duma marquise de banco. Tinha uma senhora vendendo guarda-chuvas no outro lado da rua. Ruby me disse ‘espera’ e saiu correndo. Comprou um guarda-chuva e retomamos o passo. ‘Te acompanho até tua casa e depois me explicas onde fica a rodoviária’. Ok, então.
A chuva caía e ela chegava mais perto de mim, pra não nos molharmos. Além de bonita, Ruby tinha um perfume bom. ‘Presente de uma amiga’, me disse. ‘O quê?’, perguntei. ‘O perfume’. Fiquei sem jeito. E ela chegou mais perto, me abraçou pela cintura, encostando a cabeça no meu ombro.
Chegamos no meu prédio. Perguntei se ela não queria subir enquanto a chuva não acalmava. ‘Só uns minutos’, disse. Subimos os três lances de escada, ela agarrando a minha mão.
Quando entramos, Ruby me pediu uma toalha de banho. Trouxe e ela foi pro banheiro. ‘Tens secador de cabelo?’ ‘Não, eu disse’. ‘Estufa?’ ‘Sim, já trago’. ‘Não precisa, onde fica?’ ‘Aqui na sala’. Ela saiu enrolada na toalha e trouxe calça e blusa na mão. Eu não sabia pra onde olhar. Liguei a estufa e ela colocou as roupas pra secar, em cima do sofá. Peguei um moletom e uma calça de abrigo pra ela. Parada na frente da janela, Ruby olhava a chuva no telhado do vizinho. Quando fui lhe alcançar a roupa, de repente, ela esticou o punho contra minha cara. ‘É Carolina Herrera’, disse. ‘Não conheço quem não goste’. ‘Ãh, é; é muito bom mesmo…’ A mão dela se abriu e me tocou o queixo. Rápida, puxou minha cabeça e me deu um beijo. Sem comentários. Nos filmes, nessa cena a toalha cai, mas não foi o caso. A toalha só caiu quando chegamos no sofá.
Passamos a noite. No dia seguinte, acordei sozinho, nem rastro dela.
Ruby não tinha nem 15 anos. Mas mesmo assim tinha Aids. E eu tinha nada na cabeça. Agora é tarde.
Adeus, Ruby.
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- Published:
- Agosto 28, 2008 / 05:43 pm
- Category:
- de tudo um pouco
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