Obsession

sentado na frente da tua casa, eu fico esperando o teu olho espiar pela janelinha da porta, quem sabe se a me procurar. todo dia é a mesma coisa, o mesmo ritual cronometrado despertador-banheiro-cozinha-banheiro-espiadinha. e só depois de mais ou menos um minturo de espiadas é que pões o pé pra fora. sempre elegante, bem vestida e perfumada. esse teu cheiro eu já coneheço de longe e sempre que sinto, fico a te procurar.

e lá vais tu, depois de uma espiadinha rápida, tuas belas e rápidas pernas se movem em direção ao teu trabalho. que bonita estás hoje. talvez tenhas uma reunião, ou um almoço.

sabe, uma coisa interessante é que nunca vi ninguém vir te buscar. sempre vais a pé pro trabalho, faça chuva ou faça sol. não acredito que não tenhas um colega cavalheiro, ou tarado ao menos, que não te ofereça uma carona. andas sozinha pela rua assim tão cedo da manhã, e a essa hora no inverno ainda é noite. pessoalmente, creio que deverias ter mais cuidado.

outra coisa mais interessante é que teu medo de rua existe, e se vê nas espiadinhas matinais da janelinha da tua porta. parece que a segurança da tua casa é tão cativante… mas esse teu medo é engraçado, pois se tens tanto medo de botar o pé pra fora de casa, por que pareces não ter mais medo assim que te encontras coma rua? Podias, ao menos de vez em quando, pegar um táxi, ou aquela lotações que passam na casa das pessoas. mas não, sais sempre a pé, tão bonita e perfumada. até mesmo na madrugada escura de inverno.

me lembro de uma única vez que não senti assim forte o teu perfume. foi numa manhã de chuva , usavas um casacão comprido , bege, com a gola levantada, andavas escondida sob um enorme guarda-chuva preto. talvez tenha sido a gola, talvez o vento não estivesse na minha direção, ou quem sabe não havias te perfumado, ou ainda o cheiro da rua molhada talvez fosse mais penetrante… sei lá, só lembro que naquela manhã não senti teu cheiro.

ahh… esse teu cheiro quando abres a porta, como agora. quem sabe seja o cheiro do teu suor frio de medo. não, ninguém, pode cheirar assim. e lá vais tu, quase já não te vejo mais. daqui a uma quadra dobrarás à esquerda e desaparecerás por detrás do casario. tão bela, tão intrigante.

me tiveste preso por meses nessas manhãs duras e repetitivas, mas prazeirosas. ultimamente não soubeste me surpreender, e esse convívio matinal se tornou por demais tedioso. cansei de apenas te contemplar e decidi te descobrir. não espero que me compreendas, mas mesmo assim me explico. desculpa pela janelinha da porta, mas deixei um papel na sala com o telefone de um vidraceiro 24 horas. o resto da casa está em perfeita ordem, como deixaste quando saíste. só tua cômoda está um poco desordenada, porque eu não sabia onde guardavas o teu perfume. mas tive o cuidado de deixar tudo mais ou menos como estava. desculpa de novo pela janelinha. só mais uma coisa. se eu fosse tu, trocava de porta e colocava uma toda fechada, sem janelinha, mas com olho mágico.

que fiques bem. de quem muito te admira. josé m. s. santos.


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